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Direito Imobiliário
Real Estate Law
Direito Imobiliário · Imóvel na Planta
Real Estate Law · Off-Plan Property
Atraso na entrega do imóvel comprado na planta: quais são os direitos do comprador
Delayed delivery of an off-plan property: what are the buyer's rights
Falcone & Perruci Advogados
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Direito Imobiliário
Real Estate Law
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Abril 2026
Comprar um imóvel na planta é uma das decisões financeiras mais significativas da vida de uma família. Quando a construtora atrasa a entrega — muitas vezes por meses ou até anos — o comprador paga o preço desse descumprimento de forma concreta: continua pagando aluguel, arca com encargos financeiros do financiamento, vê seus planos de vida desorganizados. A boa notícia é que o direito brasileiro protege de forma robusta o comprador nessa situação, e a jurisprudência consolidada do STJ garante indenizações reais.
O prazo contratual e o prazo de tolerância
Todo contrato de compra e venda de imóvel na planta deve conter uma data prevista para a entrega das chaves. A Lei 13.786/2018 (conhecida como "Lei do Distrato") regulamentou expressamente que os contratos podem prever um prazo de tolerância de até 180 dias corridos além da data contratual de conclusão da obra, sem que isso configure inadimplemento da construtora (art. 43-A da Lei 4.591/1964, incluído pela Lei 13.786/2018).
Esse prazo de tolerância é legítimo e amplamente aceito pela jurisprudência — mas tem um limite muito claro: os 180 dias são o máximo e precisam estar expressamente previstos no contrato. Se o contrato não mencionar prazo de tolerância, qualquer atraso além da data prevista já configura mora da construtora. Se prevê 180 dias, o inadimplemento ocorre no 181º dia após a data original.
Ultrapassado esse limite, o comprador tem direito a acionar a construtora independentemente de qualquer notificação prévia — a mora é automática, nos termos do art. 397 do Código Civil, pois o prazo contratual constitui o devedor em mora independentemente de interpelação.
A relação de consumo e a inversão do ônus da prova
A aquisição de imóvel na planta é invariavelmente uma relação de consumo regida pelo Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990). Essa qualificação tem consequências práticas muito importantes para o comprador:
- A construtora é fornecedora de serviço e produto e responde objetivamente por defeitos e atrasos (art. 14 do CDC);
- Aplica-se a inversão do ônus da prova (art. 6º, VIII, do CDC): cabe à construtora provar que o atraso não foi culpa dela, não ao comprador provar que foi;
- Cláusulas abusivas que limitam indenizações ou impõem condições leoninas ao comprador são nulas de pleno direito (art. 51 do CDC);
- A construtora não pode, por contrato, excluir sua responsabilidade por inadimplemento unilateral.
O STJ consolidou esse entendimento em inúmeros julgados, entre eles o leading case do REsp 1.631.485/DF (rel. Min. Luis Felipe Salomão), que assentou a aplicabilidade plena do CDC às relações entre compradores e incorporadoras imobiliárias.
Quais indenizações o comprador pode pleitear
Configurado o atraso, o comprador pode pleitear cumulativamente:
- Lucros cessantes: valor equivalente ao aluguel que o imóvel renderia no mercado durante o período de atraso — fixado pelo STJ em 0,5% do valor do contrato por mês de atraso como parâmetro orientador (REsp 1.341.138/SP);
- Multa contratual: se o contrato prevê cláusula penal para inadimplemento do comprador, a mesma cláusula deve ser aplicada simetricamente à construtora, por força do art. 416 do Código Civil e da jurisprudência do STJ (REsp 1.498.484/DF — Tema 971, julgado sob o rito dos recursos repetitivos);
- Danos morais: reconhecidos pelo STJ quando o atraso provoca angústia, frustração de expectativas legítimas e desestruturação da vida do comprador, especialmente quando este está pagando aluguel simultaneamente;
- Danos materiais comprovados: despesas com aluguel, mudanças, armazenagem de móveis, taxas bancárias geradas pelo atraso, entre outros prejuízos documentáveis.
A cláusula de "caso fortuito" e as excludentes alegadas pelas construtoras
É comum que construtoras invoquem "chuvas excessivas", "greve de trabalhadores", "falta de material" ou "pandemia" como excludentes de responsabilidade, enquadrando-as como caso fortuito ou força maior (art. 393 do Código Civil). O STJ tem sido rigoroso na análise dessas alegações: para configurar excludente válida, o evento precisa ser extraordinário, imprevisível e inevitável — critérios que raramente são preenchidos por intercorrências corriqueiras de obra.
A chuva esperada para a estação, a greve pontual de trabalhadores e a falta de insumos por desorganização da cadeia de fornecimento — situações absolutamente previsíveis no planejamento de qualquer obra — não configuram caso fortuito apto a excluir a responsabilidade da incorporadora. O TJMG e outros tribunais estaduais têm reiteradamente afastado essas alegações quando não demonstrada a excepcionalidade do evento.
O prazo para agir
O prazo prescricional para o comprador pleitear indenização por atraso na entrega de imóvel é de 5 anos, contados do efetivo descumprimento da obrigação (art. 27 do CDC), ou seja, a partir do dia em que a entrega deveria ter ocorrido e não ocorreu. Esse prazo é relativamente generoso, mas não deve levar à procrastinação: quanto maior o atraso acumulado, maior a indenização, e a ação deve ser proposta com a documentação probatória mais robusta possível.
"O comprador que pagou em dia, mês a mês, tem direito a receber o que lhe foi prometido — também em dia. Quando isso não acontece, o direito garante que o prejuízo será compensado."
O que fazer agora
Se a construtora já ultrapassou o prazo contratual — incluindo, se aplicável, os 180 dias de tolerância — o primeiro passo é reunir toda a documentação: contrato de compra e venda com a data de entrega prevista, comprovantes de pagamento das parcelas, registros de comunicações com a construtora e comprovantes de despesas com aluguel durante o período de atraso.
O Falcone & Perruci Advogados analisa contratos de imóvel na planta, avalia o enquadramento jurídico do caso e representa compradores na exigência das indenizações que a lei garante. Entre em contato para uma avaliação inicial.
Purchasing an off-plan property is one of the most significant financial decisions in a family's life. When the developer delays delivery — often by months or even years — the buyer bears the cost of that breach in concrete terms: continuing to pay rent, absorbing the financial charges of their mortgage, watching their life plans unravel. The good news is that Brazilian law robustly protects the buyer in this situation, and the established case law of the STJ guarantees real compensation.
The contractual deadline and the tolerance period
Every off-plan purchase agreement must contain a scheduled delivery date. Law 13,786/2018 (the "Termination Law") expressly established that contracts may provide for a tolerance period of up to 180 calendar days beyond the originally scheduled completion date, without constituting a breach by the developer (Art. 43-A, Law 4,591/1964, as added by Law 13,786/2018).
This tolerance period is legitimate and widely accepted in case law — but it has a very clear limit: 180 days is the maximum and must be expressly stated in the contract. If the contract does not mention a tolerance period, any delay beyond the scheduled date already constitutes the developer's default. If 180 days are provided, the breach occurs on day 181 after the original date.
Once this limit is exceeded, the buyer has the right to take action against the developer without any prior notice — default is automatic under Art. 397 of the Civil Code, since the contractual deadline places the debtor in default independently of any formal demand.
The consumer relationship and burden of proof
An off-plan purchase is invariably a consumer relationship governed by the Consumer Protection Code (Law 8,078/1990). This classification has significant practical consequences for the buyer:
- The developer is a supplier of goods and services and is strictly liable for defects and delays (Art. 14, CDC);
- The burden of proof is reversed (Art. 6, VIII, CDC): it is up to the developer to prove that the delay was not its fault — not up to the buyer to prove that it was;
- Abusive clauses that cap compensation or impose one-sided conditions on the buyer are null and void (Art. 51, CDC);
- The developer cannot contractually exclude its liability for unilateral breach.
The STJ consolidated this understanding in numerous rulings, including the leading case REsp 1,631,485/DF (rel. Min. Luis Felipe Salomão), which affirmed the full applicability of the CDC to relationships between buyers and real estate developers.
What compensation the buyer can claim
Once delay is established, the buyer may simultaneously claim:
- Lost profits (lucros cessantes): the rental income the property would have generated on the market during the delay period — the STJ uses 0.5% of the contract value per month of delay as a guiding benchmark (REsp 1,341,138/SP);
- Contractual penalty: if the contract provides a penalty clause for the buyer's default, the same clause must be applied symmetrically against the developer, under Art. 416 of the Civil Code and STJ case law (REsp 1,498,484/DF — Theme 971, decided under the repetitive appeals procedure);
- Moral damages: recognized by the STJ when the delay causes anguish, frustrated legitimate expectations, and disruption of the buyer's life — particularly when the buyer is simultaneously paying rent;
- Proven material losses: rental expenses, moving costs, furniture storage, banking fees caused by the delay, and other documentable losses.
The "force majeure" clause and defenses raised by developers
Developers commonly invoke "excessive rainfall," "labor strikes," "material shortages," or "the pandemic" as defenses, framing them as force majeure or an act of God (Art. 393, Civil Code). The STJ has been strict in evaluating these claims: to constitute a valid defense, the event must be extraordinary, unforeseeable, and unavoidable — criteria that routine construction setbacks rarely satisfy.
Seasonal rain, brief labor disputes, and supply chain disruptions from poor planning — all entirely predictable in any construction project — do not constitute force majeure capable of excluding developer liability. The TJMG and other state courts have consistently rejected these arguments when the exceptional nature of the event is not demonstrated.
The deadline to act
The limitation period for a buyer to claim compensation for delayed delivery is 5 years, running from the actual breach (Art. 27, CDC) — that is, from the day delivery was due but did not occur. This period is relatively generous, but should not encourage delay: the longer the accumulated delay, the greater the potential compensation, and the action should be filed with the strongest possible evidentiary record.
"The buyer who paid on time, month after month, has the right to receive what was promised — also on time. When that does not happen, the law ensures the loss will be compensated."
What to do now
If the developer has already exceeded the contractual deadline — including, where applicable, the 180-day tolerance period — the first step is to gather all documentation: the purchase agreement with the scheduled delivery date, installment payment receipts, records of communications with the developer, and proof of rental expenses incurred during the delay period.
Falcone & Perruci Advogados reviews off-plan purchase agreements, evaluates the legal merits of each case, and represents buyers in claims for the compensation guaranteed by law. Contact us for an initial assessment.